Sábado, 6 de Abril de 2013

Para acompanhar a história é favor pedir a Aznavour que cante:

 

 

 I

 

Aznavour. Naquele salão ressoava o jazz. Une chanson d’amour, claro. Um ritmo carregado. Adequado, portanto. Lá estava ela. Fita verde num contraste dos cabelos castanhos e um vestido azul. Sentada numa das cadeiras encostadas às infinitas paredes. Há sempre alguém encostado a uma parede quando morre de amor. Parecia demasiado zangada para dançar. Empertigava o pescoço. O rosto sério. Mas fácil.

De repente, um rapaz alto e delicado estendeu-lhe a mão. O sorriso colorido e o tom rebelde fizeram-na recuar na zanga. Dançaria com ele? Porque não? Seguindo Je cherche mon amour, empurraram o que lhes dificultava os passos. Compasso a compasso.

 

II

 

A música estava no auge. Atrever-se-ia o rapaz elegante à questão amedrontada?

- Estou perdoado? – Nenhum deles sabia a resposta. Nunca se sabe a resposta nestes casos solenes. O perdão evapora-se ou perdura. Consoante o tempo, a dança, a vida. A música estava, agora, quase no fim. Aznavour dava os últimos tons àquela oportunidade de reconquista. “Apressa-te”, pensava o jovem. Antes que chegue o fim. O medo do fim da música. Sempre o fim da música.

Por fim, o silêncio. Ah, o tom escuro e denso de não se ter nada para dizer. Desejavam ser cegos. Mudos já o eram e não lhes agradava a partitura.

“A cadeira ainda está livre…”. Quem pensava assim? Ele? Ela? Os dois em sintonia e em pleno desejo do fim?

 

III

 

Chovia na passagem de uma música para outra. O cantor? Ninguém sabia dizer.

Algures, ele entregara um guarda-chuva. Ah, lá estava o senhor de casaca bordeaux. Lembrou-se do quão nervoso estava ao entrar. Deixara cair o casaco e o chapéu. Reparou no sorriso condescendente do senhor da casaca bordeaux.

Chegara ao salão apenas para dançar com ela. Seria a última vez? Estremeceu ao pensar no futuro. Seria sempre assim? Uma dança. Uma pausa. Uma dança. Uma pausa. Talvez fosse essa a musicalidade da vida…

Quando a viu, já ela vestira o casaco. Comprido e engraçado na sua figura pequena e delicada. Sobre os ombros. Mais tarde, lembrar-se-ia de como era nela um hábito nunca vestir o casaco comprido. Apenas acomodá-lo ao seu corpo delgado. Talvez um dia fosse moda. Hoje era apenas um hábito.

Viu-lhe os sapatos pretos. Um deles estava irrequieto no seu pé. Talvez ela já não estivesse tão paciente.

Depois o colar. Teria alguém oferecido um colar à sua amada julgando que ele seria usado após o esquecimento do amor? Ah, a matéria. Sempre a volátil matéria.

Depois os olhos. Corou. Eram castanhos. Tão banais. E, ao mesmo tempo, tão profundos.

- Vamos? – O sobressalto dela não lhe agradou. Talvez se Aznavour ainda se fizesse ouvir, ela não se teria assustado com o toque dele.

Alguém forçou um riso no salão. Hoje em dia toda a gente força o riso. Também eles sorriram. E saíram. Continuava a chover lá fora. Entre eles, ainda soava a procura do amor que o cantor da Chanson Française incentivara. Mas nenhum deles percebera a mensagem, talvez. Apenas seguiram. Chovia cada vez mais. Mas seguiram. Firmes. Afastados um do outro pelo eterno problema da incompreensão.

E seguiram.

Terá alguém voltado a vê-los dançar?

 

 

 

Caty.


Sinto-me Aqui. E ali.

publicado por Caty. às 21:29 | link do post | comentar

.Banda Sonora.

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