Domingo, 14 de Abril de 2013

 

Há dias assim. Há dias em que nos sentimos despojados de tudo. Não o sentes? O vazio? O zunzum do silêncio? É tão absurdo e tão desesperante. Como se estivesse à espera que alguma coisa acontecesse. Há uma preguiça que se instala no meu corpo, que me deixa dormente. Sinto que quero tudo e nada me satisfaz. É como uma correria, uma rapidez que cresce dentro de mim. Nunca estou plena. Nunca estou em paz. Aborreço-me comigo. Esqueço-me de mim. E passo horas, sentada numa divagação absolutamente destrutiva.

Nestes dias, se tivesse coragem, matava-me. Não porque queira morrer. Mas porque só assim acalmaria o fogo, a ofensa e a vaidade de nada me satisfazer. Sou bizarra nestes dias. Sou cruel. Sou feia. Não sei o que dizer nem o que fazer. Sinto um sufoco imenso que me tolda os sentidos. Imerso-me em considerações sobre a vida. E, por isso, me matava. Me sufocava até à morte. Só pelo prazer de renascer. Não consigo dormir nestes dias. Não consigo pensar. Nem sentir. Só consigo existir e, mesmo assim, fracamente. Quem sou eu e o que faço aqui são questões que não consigo sequer colocar quanto mais responder.

No final do dia vejo um filme e desejo desesperadamente estar no filme. Ser a protagonista. A heroína. Ser arrebatada por um beijo sedutor de finais dos anos 30. Desejo o impossível encontro de mentes sãs. Mas como ouso? Sou perversa nestes dias: seria capaz de morrer. Morrer apenas e nunca morrer somente. Como? Como paro eu de escrever quando nem os meus dedos me obedecem? Sinto-me capaz de tocar o céu mas as dores nas costas impedem-me. E, ao longe, a promessa da Primavera. Do futuro. Do futuro que me faz sentir receio. Medo. Terror. Petrifico ao som dos pássaros. Não sei o que pensar sobre eles. Ou sobre o sol. Nem o sei distinguir das sombras das nuvens. Oh, Deus! Como ouso dizer que me matava quando estou a viver? Viver é não sentir, sabes? É fechar os olhos às diversas questões do mundo. É não respirar. Não falar. Não ouvir. É viver. É correr, saltar, gritar. É não esperar nada da vida excepto a morte. Não! É precisamente não esperar a morte. Não a querer, não a ter. Ambiciono possuir a vida e deitar fora a morte. E, por isso, me matava. Dizem que é preciso coragem e eu só sei existir. Só sei Ser. Não sou corajosa nem quero sê-lo. Deito ao mar a bondade da morte. E vivo. Fugazmente nunca! Delirantemente sempre. E os dedos doem-me. Não porque os sinta. Mas porque os vejo doer. Eles desfazem-se e criticam-me. E eu continuo a bater com eles no teclado. E na mesa. E no ar. Ah, sim! É no ar que eles se dissolvem. Tal como eu.

Olhei-me ao espelho e já não era eu. Terei morrido? Obcecada pensei que sim. E tentei ser outra. Mas não morri. Por isso, sempre fui a mesma. E a dor continua. E o texto vai longo. E eu não morri.


Sinto-me Perfeitamente.

publicado por Caty. às 23:44 | link do post | comentar

1 comentário:
De ἔρις a 8 de Junho de 2013 às 20:38
Vápido. Como um juiz no leito de morte a perguntar-se se morrerá dignificantemente... "antes de fazeres essa pergunta, não precisarias primeiro de viver?".


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